segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Baby Jane


Baby Jane não chorou quando nasceu naquela noite de tempestade. Nem uma lágrima sequer. A parteira estranhou e bateu-lhe nas pequenas nádegas. Ela apenas encheu os pulmões e olhou em reprovação, como quem pergunta se aquilo é realmente necessário. Naquele momento um arrepio eriçou os pelos dos braços e cabelos da enfermeira. Mais um, pensou ela. Mais um Warlock!


Acreditava que já fizera o parto de alguns deles. Por simples intuição. Sentia que havia algo de errado com eles, como se a simples chegada daqueles seres ao mundo pudesse alterar tudo a sua volta. Já vira dezenas de corujas se empoleirarem nas janelas da sala de parto para assistir o nascimento. Já vira a luz do sol tocar a pele do bebê e se dispersar em uma miríade de cores, como se uma fina garoa trouxesse o arco-íris para dentro da sala.

Pensou em sufocá-lo enquanto a mãe ainda descansava do parto. Coisas do coração do recém nascido, diriam. Chegou a olhar para os lados para verificar se havia mais alguém na enfermaria, mas observar os pelos dos braços ainda eretos a fez temer sobre o que poderia acontecer caso atentasse contra "aquilo".
Colocou-a no pequeno berço e proferiu: "Amaldiçoada seja", antes de sair da enfermaria, quando pode respirar aliviada, sem a sensação de que carregava a própria tempestade nos braços.

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